
Natureza-morta
Viseu, Viseu, Portugal
Museu Grão Vasco
Museu Grão Vasco
Baltazar Gomes Figueira (atribuído) (1604, Óbidos-1674, Óbidos)
2127
Pintura a óleo sobre tela.
Altura: 41 cm; largura: 161 cm
Colecção permanente do Museu Grão Vasco.
Bodegones, natureza-morta.
1626–1674
Óbidos, Portugal.
Baltazar Gomes Figueira, nascido em Óbidos, fez a sua formação artística em Sevilha, onde contactou com grandes mestres da pintura espanhola do século XVII, como Francisco de Herrera, Zurbarán e Juan del Castillo, que, certamente, o influenciaram na arte de pintar bodegones, designação dada às naturezas-mortas ou a cenas de cozinha, na Espanha do século XVII. Este género de pintura era muito apreciado na Europa de seiscentos, resultado da importância que o quotidiano passou a ocupar no campo das artes visuais e da curiosidade pelas ciências naturais. Em geral, a natureza-morta, característica da estética do Barroco, apela a valores transcendentais pela materialidade dos objectos e propõe uma interpretação simbólica, atribuindo a cada um dos seus elementos significados pedagógicos e moralizantes.
Esta pintura é composta por três grupos de elementos. À esquerda, na parte mais despojada da mesa, dispõem-se os peixes, que aludem às quatro virtudes cardeais: Prudência, Justiça, Fortaleza e Temperança. Sobre uma toalha de seda, trabalhada em vibrantes tons de verde, encontram-se quatro peças de caça (pardal, picanço, pato e perdiz), habitualmente associadas à luxúria e ao pecado. O cacho de uvas surge como a redenção dos pecados que as peças de caça representam. À direita, estão dispostos vários objectos (uma salva de prata e um pote de barro), doces, bolos (folares e pão-de-ló) e frutos (duas laranjas, um limão e duas pêras). Os frutos e os doces simbolizam a abundância, os desejos sensuais, a prosperidade e a imortalidade, num apelo aos sentidos e ao deleite contemplativo.
Os animais, os frutos e os doces congregam-se em grupos de quatro, expressão numerológica relacionada com as quatro estações da natureza, os quatro momentos do ciclo da vida humana (nascimento, infância, idade adulta e velhice), os quatro elementos (terra, ar, água e fogo) e os quatro princípios da nossa existência (mente, corpo, espírito e alma).
A composição é equilibrada e revela um trabalho de minúcia e de requinte, o domínio da técnica do claro-escuro, uma atenção ao pormenor e um grande realismo na representação das sombras e dos reflexos de luz.
Natureza-morta com peixes, aves, frutos, doces e objectos de barro e prata, atribuída a Baltazar Gomes Figueira, possivelmente realizada entre 1640 e 1650.
Esta composição parece sugerir dois mundos complementares: a representação simbólica do mundo espiritual (expressa através dos peixes e do cacho de uvas), em oposição ao mundo terreno com os seus perigos (encarnado pelas peças de caça, pelos doces e pelas frutas).
Análise estilística.
Serrão, V., Josefa de Óbidos e o Tempo do Barroco, Catálogo, Palácio da Ajuda, 1991.
Serrão, V., Uma obra-prima do pintor seiscentista Baltazar Gomes Figueira, Éden Gráfico, Viseu, 1994.
Rouge et or: trésors du Portugal Barroque, Catálogo, Musée André Jacquemart, Paris, 2001.
Direitos de autor fotografias: Divisão de Documentação Fotográfica /Instituto dos Museus e Conservação,IP.
Graça Marcelino "Natureza-morta" in "Discover Baroque Art", Museum With No Frontiers, 2026.
https://baroqueart.museumwnf.org/database_item.php?id=object;BAR;pt;Mus11_A;2;pt
Número interno MWNF: PT 02
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